MEMÓRIA, TÉCNICA E O FUTURO DA LITERATURA EM MEIO ÀS TRANSFORMAÇÕES TECNOLÓGICAS
Memorial do Fim: a morte de Machado de Assis, de Haroldo Maranhão,é uma obra estruturada de forma fragmentária e descontínua que narra ora a agonia final de Machado de Assis, ora a agonia do Conselheiro Ayres em seu leito de Morte. No percurso narrativo da obra, o leitor testemunha um entrecruzamento constante entre o ficcional e o historiográfico, contaminados por estruturas típicas da narrativa cinematográfica e jornalística. O ficcional está configurado a partir da presença de personagens pertencentes ao universo machadiano, enquanto o historiográfico se apresenta através da presença e circulação de personagens do plano do real, pertencentes ao círculo de amizades de Machado de Assis ou externo a ele, ou pertencentes a história política do país.
Buscamos com este trabalho levantar algumas questões e apresentar algumas reflexões sobre o processo de estruturação do signo literário no código pós-moderno e no que se convencionou chamar de era digital. A questão fundamental que se propõe é a seguinte: como se constrói o sentido da narrativa ficcional na pós-modernidade em meio à brutal transformação tecnológica que afeta as nossas sensibilidades e coloca em xeque a própria existência do livro como uma das mídias tradicionais de preservação da memória?
O historiador Jean Starobinski lembra que a escolha de um objeto de estudo não é inocente, mas que supõe uma interpretação prévia, inspirada por nosso interesse atual. ele chama atenção para o fato de que essa atitude de se debruçar sobre um determinado objeto não se trata de um puro dado, mas de um fragmento do universo que delimita a nossa maneira de olhar. Uma outra questão levantada pelo historiador é a de que a linguagem em que assinalamos um dado já é a linguagem em que, posteriormente, o interpretaremos.
A literatura se configura como um discurso de representação e a crítica literária como uma prática de investigação teórica das formas concretas, particulares – das obras que esse discurso produz – e que tem por objetivo desentranhar de sua linguagem, descendo ao que elas enunciam, as estruturas que as tornam interpretáveis e as carregam de potencialidade estética. Sendo essas estruturas objeto de conhecimento, a prática crítica é uma prática teórica.
Quando voltamos a nossa atenção para o problema da relação da literatura com as transformações tecnológicas e para a mudança da sensibilidade estética no campo da arte nesse final de século, deparamos com uma série de problemas que questionam o futuro da arte e, no nosso caso, em particular, o destino da literatura. À medida que ingressamos naquilo que hoje é conhecido como ciberespaço, ou espaço cibernético, as formas tradicionais de representação experimentam abalos imprevisíveis. Transformações já foram experimentadas antes, mas não de forma tão radical. Se antes demolia-se a cena representativa, agora elimina-se.
Representar significava dar sentido ao real. E o real era constituído por essa contracena mais inamistosa que afável, esse entendimento ou esse mal-entendido que se verifica cotidianamente entre homens e coisas. O real tem uma capacidade de sobrevivência de que não dispõe o virtual. “O virtual é – diz Pierre Lévy –, uma das possibilidades do real”. No virtual cessam os pequenos acordos e os grandes mal-entendidos. Lévy ver o virtual como força problematizadora, segundo o autor, “virtualizar uma entidade qualquer consiste em descobrir uma questão geral à qual ela se relaciona, em fazer mutar a entidade em direção a essa interrogação e redefinir a atualidade de partida como resposta a uma questão particular”[1].
Eduardo Portella refletindo sobre o virtual chama atenção para o seguinte: “Talvez devamos pensar a questão do virtual, ou de sua invasão do território literário, enlaçando, pelo menos para começar, três referências inevitáveis: complexidade, velocidade, interdisciplinaridade. Elas nos proporcionarão, combinadamente, outras possibilidades de reflexão. E nesse momento, diante da polimorfia do virtual, da lentidão da letra e da velocidade da imagem, a saída jamais terá de ser a clonagem da literatura”. Nos assumimos nessa pesquisa o conceito de virtualização – como instauradora de um processo problematizador –, formulado por Lévy ,devido ao fato de ele ajudar a elaborar um caminho para enterdermos o que é a literatura nesse final de período de múltiplas definições: pós-moderno, neomoderno, neobarroco, baixa modernidade, etc. No caso da nossa proposta de trabalho ela se adequa perfeitamente por possibilitar romper a barreira e o impasse diante de um problema vivenciado no campo da crítica literária nesse fim de século que é o de tentar responder à pergunta: quais são os caminhos da literatura diante de tanta transformação tecnológica?
O advento das mídias digitais de massa e das recentes tecnologias de informação/comunicação coloca em xeque o papel tradicional da literatura e da arte como um todo, desencadeando um movimento de autoquestionamento a partir de seus próprios fundamentos. Estes questionamentos ocorrem sob diversos aspectos, dentre os quais podemos citar: a noção e concepção de autoria, a fragmentação da narrativa, as novas relações textuais – criadas a partir do conceito de hipertexto, a relação texto/imagem, a interatividade, a virtualização do texto literário e a introdução do conceito de cyberliteratura.
Diante deste quadro, começa a ser esboçada uma poética da literatura pós-moderna e de suas relações com o mundo virtual, atentando-se especialmente para as obras que procuram redefinir e ampliar o estatuto do literário, seja pelo diálogo intersemiótico do texto com imagens, sons e movimentos, seja pelo questionamento de conceitos sobre leitura, autoria, narrativa e representação. No bojo de todas as discussões surgidas em torno da literatura nesse final de século e que atualmente tem merecido lugar de destaque no campo das ciências humanas está, sem dúvida, a questão relativa ao pensamento e à produção literária na era do digital. Diante desse fato, buscamos com esse projeto refletir sobre as seguintes questões: até que ponto, e de que maneira, se diferenciam a forma e a sensibilidade literária da modernidade e da pós-modernidade frente ao avanço da tecnologia digital e como se processará a relação leitor/texto diante do novo quadro que se estrutura?
Para responder a essas questões trabalharemos com a crítica da cultura que irá nos fornecer instrumental teórico-investigativo para que tornemos possível a formulação de alguns pressupostos teóricos à cerca de uma nova lógica existencial para o sentido da literatura, num mundo dominado por imagens, velocidade, informação em tempo real. Definitivamente – como diz Guattari[2] – entramos na era da subjetividade maquínica, não de uma subjetividade reterritorializada, mas de uma subjetividade controlada pelas máquinas: mídias, bancos de dados, a temporalidade dos computadores, telecomunicações. Não se trata aqui de dizer que as máquinas tomarão o poder e dominarão o homem – a ficção científica já fez essa previsão e ela não se concretizou. Mas de apenas constatar o fato de cada vez mais e com maior intensidade a nossa subjetividade está entrando em máquina: esta é a era que Guattari chama de idade da informática planetária.
Para Jean Baudrillard[3], hoje não pensamos o virtual; somos pensados por ele. Baudrillard vê o virtual de forma bastante negativa. Segundo ele, não é possível imaginarmos o quanto o virtual já transformou todas as representações que temos do mundo. O virtual, na sua opinião, caracteriza-se pela eliminação da realidade, mas não só, pois também inclui o apagamento da imaginação do real, do político, do social “- não somente a realidade do tempo, mas a imaginação do passado e do futuro (a isso chamamos, em função de uma espécie de humor negro, de “tempo real”).”
O virtual apresenta-se como uma ilusão que é perpassado e dominado pela entrada em cena da informação, pelo fim do pensamento com o surgimento da inteligência artificial. Para esclarecer o seu pensamento ele usa um exemplo bastante delicado, devido ao fato de estar situado ao longo do acontecimento mais assustador e mais incompreensível de nossa história moderna: a exterminação dos judeus nos campos de concentração nazistas e os que negam a sua ocorrência histórica, os negacionistas. A postura negacionista é absurda e aberrante, pois vai contra a realidade histórica e objetiva da exterminação. No tempo histórico os fatos aconteceram e as provas estão ao alcance de qualquer um, que as queira investigar. Mas Baudrillard chama-nos a atenção para o fato de não estarmos mais no tempo histórico; de agora em diante estamos no tempo real. No tempo real não há mais prova de nada. É impossível verificar a exterminação no tempo real. O negacionismo é visto como um absurdo na sua própria lógica, mas ajuda a esclarecer por meio do próprio absurdo o surgimento de uma outra dimensão:
– Paradoxalmente chamada tempo real, mas onde precisamente a realidade objetiva desaparece, não somente a do acontecimento presente, mas também a do acontecimento passado e a do futuro. Tudo se esgotando numa total simultaneidade que os atos aí não acham sentidos, os efeitos não acham suas causas e a história não pode mais aí se refletir[4].
O tempo real é visto por Baudrillard como um gênero de buraco negro, onde nada penetra sem sofrer um esvaziamento de sua substância. Os campos de exterminação, argumenta, tornam-se virtuais e só tem existência na tela do virtual. Todos os horrores decorrentes do Holocausto e os testemunhos da sua ocorrência, são lançados, apesar dos negativistas, apesar de nós, no que ele chama de abismo do virtual onde os acontecimentos ou os fatos só existem o tempo que existem e nada mais.
A visão de Baudrillard em relação ao virtual é bastante cética, desencantada. Ele vê no virtual a desestabilização da verdade e a derrota do pensamento histórico e crítico. Com isso ele quer dizer, na verdade, que há o triunfo do tempo real sobre o presente, sobre o passado, sobre toda e qualquer forma de articulação lógica da realidade.
O mesmo não pode ser dito de Pierre Lévy que busca nos seus trabalhos uma compreensão diferenciada do virtual. Lévy possui um visão mais positiva, pois vê no virtual a sua oposição ao atual. Fugindo ao senso comum o autor retira o conceito de virtual da ordem da ilusão, da ausência de existência. Dessa forma, ele passa a ser entendido não como oposição ao real, mas ao atual. Nas palavras de Lévy, virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras de ser diferentes. A atualização pertence à esfera da solução de um problema, invenção de uma solução para um complexo problemático. Enquanto que a virtualização, como define Lévy, pode ser entendida como o movimento inverso da atualização, ou seja, ela está situada no contexto da problematização. Porém não deve ser entendida como uma desrealização (transformação de uma realidade num conjunto de possíveis), mas como uma transformação de uma identidade, um deslocamento do “centro de gravidade ontológico” do objeto considerado que, ao invés de se orientar para uma solução (atualização), “a entidade passa a encontrar sua consistência essencial num campo problemático”. Virtualizar uma entidade qualquer deve ser entendido como descobrir uma questão geral à qual ela se relaciona, consiste em fazer mover a entidade em direção a essa interrogação e em reorientar a atualidade de partida como resposta a uma questão particular. Partindo dessa conceituação de Pierre Lévy buscamos virtualizar a construção do sentido na narrativa da chamada pós-modernidade. Pois entendemos que o texto do romance pós-moderno se desterritorializa rumando na sua virtualização para uma ressurgência do que Lévy chama de ressurgência da cultura do texto. Uma obra na qual podemos exemplificar a questão da virtualização é Memorial do fim: a morte de Machado de Assis, de Haroldo Maranhão. Essa obra integra aquilo que chamamos de Hipertexto. O hipertexto que a obra traz consigo é formado por fragmentos da obra machadiana e por elementos do mundo no qual essa obra esteve e esta imersa.
Memorial do fim virtualiza pontos importantes da literatura machadiana e da leitura da obra machadiana, do próprio fazer literário e das relações do autor com as figuras históricas do seu tempo atualizando-as. Tomando a atualização como criação e invenção de uma forma partindo de uma estruturação dinâmica de forças e de finalidades, conforme Lévy, entendemos que o romance na pós-modernidade produz qualidades novas na narrativa, produz uma transformação das idéias, um verdadeiro devir que realimenta o virtual.
O semiólogo francês Roland Barthes (1982), ao discorrer sobre o Noveau Roman, ressalta, como característica do tempo em que vivemos, o fato de hoje a nossa sociedade ser particularmente difícil de compreender. O homem se vê quase impossibilitado de analisar. Vivenciamos uma situação de ambigüidade, ao mesmo tempo, vivemos numa sociedade de classes e de massas. Os grandes problemas da sociedade se apresentam de forma embaralhada. A própria cultura política aparece como marca de um tempo de estagnação. Como não poderia deixar de ser, esses fatores dispares influenciam a escrita e nela se traduzem.
Barthes via na escrita a arte de levantar questões e não de responder a elas, ou de as resolver. Assim como o romance modernista desenvolveu essa consciência de que a literatura era a maneira de levantar questões, entendemos que o romance pós-moderno também a tenha desenvolvido e, conseqüentemente, todo esse questionamento desenvolveu-se no âmbito da crítica literária.
A ensaísta e crítica literária Leyla Perrone-Moisés em texto apresentado como comunicação no 5o Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada e publicado no Caderno "mais!", do jornal folha de São Paulo, de 25 de agosto de 1996, faz a seguinte pergunta: "Que fim levou a crítica literária"? Perrone-Moisés lembra que a crítica foi uma atividade muito exercida e muito respeitada desde os tempos modernos, Mas, segundo a autora, falar de "Crítica" na pós-modernidade tornou-se uma coisa antiquada. Para Perrone-Moysés, em tempos pós-modernos ela se encontra relegada ao rápido resenhismo de jornais, "necessário mais suficiente".
Basicamente, ela aborda em seu texto a situação na qual foi posta a literatura na pós-modernidade, como mera depositária da memória cultural. Essa função suscita algumas perguntas "Quais são exatamente os fenômenos culturais preservados na e por meio da literatura? A literatura é, às vezes, freqüentemente ou sempre um meio de promover a tradição, a continuidade, ou mesmo a permanência? Isso é uma boa coisa? Ou seria, pelo contrário, uma razão para pôr em causa a literatura (e/ou a estética em geral)?".
Perrone-Moisés chama atenção para o fato de que considerada apenas como memória a literatura fica presa a palavras como "depositária", "preservação", "tradição", "continuidade", "permanência" e é lançada num imobilismo e num conservadorismo que nunca havia conhecido. Este tipo de classificação gera um esvaziamento que coloca em risco a literatura enquanto produtora de conhecimento, de crítica do real e "proposta indireta (estética) de alternativas para o mesmo".
Apesar de sofrer diversas críticas, uma delas é a de instaurar um vale-tudo, o pós-moderno na realidade procura reavaliar o conceito de arte na modernidade rompendo com padrões tacitamente aceitos. O pós-moderno não sofre da angústia da influência, pelo contrário, ele a celebra e a expõe sobre um novo ponto-de-vista. Não há uma ameaça ao Cânone, mas justamente uma celebração do mesmo. Ítalo Calvino lembra da necessidade de se ler os clássicos como forma de construção de um conhecimento, e não como caminho para uma erudição diletante. Uma crítica pós-moderna no Brasil está voltada para o estabelecimento de uma teoria literária que busca criar condições para a compreensão das transformações por que tem passado a literatura brasileira desde o século XIX. Na realidade, ela é um trabalho de reinterpretação da própria crítica, uma crítica da crítica. O que essa crítica da crítica tem por objetivo é restabelecer a idéia da literatura como forma de conhecimento, exercício da liberdade, crítica do real, mito verdadeiro, utopia, projeto. E se recolocar como diálogo, ampliação da leitura, extensão do saber e da ação da obra.
Este processo estabelecido pela crítica pós-moderna recoloca na ordem das discussões o discurso teórico como produto da reflexão crítica. Costa Lima no seu artigo "Quem tem medo da teoria" lembra que quando uma comunidade não tem o hábito da discussão, a utilização da linguagem crítica sempre lhe parecerá ameaçador. Pela sua própria natureza o discurso teórico gera alguns questionamentos e dificuldades. É mais ou menos isso o que ocorre com o artigo de Leyla Perrone-Moisés, que apesar de atacar de alguma forma o pós-moderno, eu incluiria no âmbito da crítica pós-moderna. Perrone-Moisés e Costa Lima "jogam areia em olhos descansados" ao proporem uma reavaliação da crítica. Criam um grande incomodo ao proporem um redimensionamento dos objetivos dos estudos literários e da própria função da crítica. É a critica se debruçando sobre ela própria a fim de construir o seu caminho.
Se o texto tem por definição ser uma prática de linguagem resistente a modelos prévios, se a escritura e leitura formam o "par mínimo" das pesquisas em literatura, principalmente neste momento teórico marcado pelo Pós-Estruturalismo, o que estabelecemos como objetivo fundador de nossos estudos é justamente a ampliação da rede do pensamento teórico sobre a literatura, retrabalhando os conceitos já clássicos de crítica e historiografia literária, percebendo a atuação e organização de um sistema intelectual que se vê obrigado a reformular as suas posturas críticas em função de transformações por demais brutais impostas pelas variações tecnológicas que nos cobram uma nova forma de olhar para o texto literário.